Quem é contra a igualdade entre homens e mulheres?

Até 2007 a minha posição sobre movimentos de minorias – em geral – e sobre feminismo –  em específico – era bem diferente da que é hoje.

Se aproximava bem mais da posição que eu creio ser a da maioria das pessoas: um afastamento benevolente. A maioria das pessoas não se envolverem muito com questões de minorias mas têm uma visão positiva sobre os que se envolvem.

As posições e discursos daqueles que pegam o microfone para falar em defesa dos direitos dos negros, mulheres e gays é tida como a posição boa, bonita e agradável por default (e vice-versa: qualquer um que faça críticas mais incisivas e frequentes a estes movimentos é prontamente identificado como “Fascista!”).

Ao mesmo tempo percebo que a maioria das pessoas se chocam um pouco com extremismos (como depredações contra templos religiosos por parte de ativistas feministas ou discursos de morte aos brancos por parte de ativistas negros), mas sem que, na maior parte dos casos, estes atos ou discursos extremados sejam suficientes para abalar a boa vontade prévia com relação aos movimentos de defesa das minorias: o máximo é algo como “os meios podem não ser os melhores, mas ao menos a causa é boa”.

Eu tinha uma posição bem semelhante até 2007: a adoção do sistema de cotas raciais em algumas universidades já me incomodava um pouco, bem como o aumento da penetrância das propostas (que foram paulatinamente sendo aprovadas) de leis que tratavam desigualmente homens e mulheres (lei Maria da Penha, por exemplo) ou canções de rap paulista (como a faixa Preto Tipo A, dos Racionais MCs) dizendo que negros não devem fazer amizades com brancos. Mas, no geral, eu acreditava que eventuais discursos ou atos extremados fossem efeitos colaterais e reversíveis.

No meu caso, o momento epifânico aconteceu quando trabalhei no IBGE, mais especificamente, nas edições de 2006 e 2007 da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio.

A PNAD é a maior pesquisa anual do IBGE, provavevelmente só perde em tamanho para o Censo, que é decianuial, e investiga aspectos demográficos relacionados a temas como educação, saúde, renda, trabalho… muitas das alegações de desigualdade que você constantemente ouve dos ativistas de minorias nestes campos têm como fonte primária no Brasil esta pesquisa.

Até 2007 eu acreditava piamente, e costumava repetir esta lenda urbana, que as mulheres ganham menos do que os homens em função de preconceito no mercado de trabalho.

Eu nunca havia tido acesso às filósofas feministas Christina Hoff Sommers e Janet Radcliffe-Richards, que poderiam me desfazer este mal-entendido.

Até então eu achava, inclusive, que o termo feminismo se referia a um movimento muito mais homogêneo ideologicamente do que sei que ele é hoje, e que todos os feministas acreditavam na ideia de que homens ganham mais que mulheres por preconceito contra estas e a favor daqueles.

Foi ainda durante o treinamento para a PNAD de 2006 que eu comecei a me chocar com os fatos. Recebíamos um farto material para estudo (inclusive tabelas de resultados das pesquisas anteriores e aspectos metodológicos) e passei por um treinamento previo de 15 dias em uma das sedes do instituto, da rua General Canavarro, no Rio.

Alguns detalhes me chamaram a atenção: em basicamente todos os aspectos econômicos, educacionais e de saúde avaliados havia ampla desigualdade entre homens e mulheres, mas em muitos deles, possivelmente a maior parte, os homens eram os ‘perdedores’.

As tabelas de carga horária semanal média, por exemplo, apresentavam cerca de oito horas a mais gastas por homens do que por mulheres em suas atividades economicamente produtivas. Homens ingressavam no mercado de trabalho seis anos mais cedo que as mulheres. Provavelmente por isso abandonavam a escola antes. Homens eram maioria absoluta nos setores de construção civil, extração e indústria (os três setores da economia que concentram os serviços mais periculosos, insalubres e técnicos) enquanto mulheres eram ampla maioria nos setores comércio, serviços e serviço público. Homens gastavam mais horas no deslocamento casa-trabalho-casa.

Mas as únicas desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho que eu via ser anunciadas frequentemente na mídia eram sobre mulheres ganhando menos que os homens e trabalhando mais horas nos afazeres domésticos. E tais dados eram veiculados de maneira a dar a entender que todo o resto estava planificado (mesmo que a observação cotidiana já seja suficiente para contrabalançar esta crença).

Quero crer que nenhum ser humano sensato chamaria de igualitário um país onde homens trabalhassem EM MÉDIA mais horas por semana, em atividades mais periculosas e insalubres, que dependessem de conhecimentos técnicos mais esotéricos, demorando mais horas presos no engarrafamento para ir ao trabalho… e no fim do mês ganhassem o mesmo, ou no fim do dia dividissem igualmente as tarefas domésticas.

Aliás, a questão das tarefas domésticas é curiosa, porque quando somados os gastos femininos e masculinos médios com estes três fatores: horas de trabalho economicamente produtivo + tempo de deslocamento + atividades domésticas o que o IBGE demonstra é que o resultado é praticamente idêntico para mulheres ou homens no Brasil: cerca de 53 horas por semana.

O que de fato ocorre é que, como mulheres ocupam em geral empregos com carga horária menos extensa e em atividades mais próximas de casa, também em geral elas ficam mais responsáveis, dentro das divisões das reponsabilidades domésticas, pelo cuidado das coisas cotidianas do lar (sobre se estas divisões devem ou não existir, ou se são ou não necessariamente opressoras, sugiro os dois ótimos vídeos da vlogueira canadense Karen Straughan, abaixo).

O que o ‘feminismo de gênero’ (para usar a útil classificação cunhada por Christina Hoff Sommers) faz – através de seus aparelhos de divulgação – é coletar cerejas, pinçar variáveis que sejam favoráveis ao discurso de “homem opressor, mulher oprimida” e esconder, fazer silêncio, negar… os resultados, disponíveis nas mesmas fontes, que mostram um equilíbrio no desiquilíbrio.

Dois dos contra-argumentos que costumo ouvir são nas seguintes linhas:

  • “Ahhhh, Daniel, mas eu desconfio dos resultados destas pesquisas que você está falando aí, porque eu, particularmente, trabalho mais horas que o meu marido e ganho mais do que ele e mesmo assim ele acha que eu tenho que fazer todas as tarefas de casa”

Sobre isso, minha resposta é: sim, existem todos os tipos de ‘desigualdades’ pontuais que podem ser usadas como evidências anedóticas.

Vá morar com o diabo’, é uma composição do sambista baiano Riachão e lindamente gravada por Cassia Eller em que o eu lírico é um marido que se mata de trabalhar enquanto a mulher passa o dia dormindo,  todo mundo conhece alguma família em que há um casal de irmãos no qual um se ocupa nas tarefas domésticas e outro não (muitas vezes o que ajuda é ele, outras tantas é ela)… e também todo mundo sabe de algum caso em que o marido que trabalha tanto ou até menos que a mulher e mesmo assim age como se toda a responsabilidade das tarefas domésticas seja dela.

É por isso que evidências anedóticas valem menos que estatísticas cientificamente elaboradas: as evidências anedóticas podem mostrar tanto o cenário seja favorável aos homens (se você quiser focar na história do seu cunhado preguiçoso que faz sua irmã de escrava) quanto às mulheres (se você quiser relatar a vida do coitado do seu irmão que sofre com a mulher encostada dele).  Já a PNAD, quando lida sem seleção ideológica das variáveis, sem ‘coletar cerejas’, mostra que a coisa é bem mais equilibrada.

  • “Ahhhh, Daniel, mas eu li uma outra pesquisa, que dizia que mesmo quando homens e mulheres têm trabalhos idênticos os homens ganham mais”.

Provavelmente o que você viu foi alguma pesquisa (existem várias, como esta aqui: http://www.lg.com.br/huma/mercado/saiba-quais-as-profissoes-em-que-as-mulheres-ganham-mais-do-que-os-homens) que dizia que mesmo quando homens e mulheres exercem a mesma profissão os homens ainda ganham mais.

Sim, é verdade: biólogos ganham em média mais que biólogas, médicos ganham mais que médicas… e isto reforça meu ponto.

Como?

Sim, note: a PNAD, ao dizer que homens ganham cerca de 30% do que as mulheres, considera os homens e mulheres brasileiros em geral, independente de qualquer variável adicional.

Já nas pesquisas que isolam a variável ‘profissão’ o resultado é uma drástica redução da desigualdade, mas ainda a manutenção de alguma, oscilando em torno dos 15%.

E por que a desigualdade não acaba? Simples demais: porque há outras variáveis influenciando no resultado salarial: anos de estudo, horas de trabalho semanal, exercício diurno ou noturno do emprego…

O fato de que, quando isolada a variável ‘profissão’, os homens continuam ganhando mais – porém com uma menor diferença percentual –  é uma excelente evidência de que a desigualdade de cerca de 30% nos ganhos de trabalhadores masculinos e femininos não é resultado de preconceito no mercado de trabalho, mas de variáveis como carga horária, área de atuação, anos de experiência e turno de trabalho.

Se você lê bem em inglês, eu fortemente sugiro este artigo da filósofa, professora de ética na Universidade de Oxford, Janet Radcliffe-Richards.

Nele ela defende que a igualdade defendida pelos feministas de segunda e terceira onda, baseada e salários iguais e coisas semelhantes, não atende ao que John Stuart Mill, um dos primeiros pensadores feministas, chamava de princípio da igualdade plena. Eu a acompanho completamente em sua defesa feita aqui: http://www.jpe.ox.ac.uk/papers/the-problem-of-sex-equality/.

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