Não, não foram mortos 318 por homofobia no Brasil em 2015

O primeiro parágrafo deste post é para explicar que o autor deste blog não é a favor de assassinatos de homossexuais, que ele considera qualquer homicídio (exceto os em legítima defesa) grave e que acredita que homicidas motivados apenas por ódio contra grupos sociais (sexualidade, aficção esportiva, religião, bairro de moradia) devem receber os agravantes de pena já previstos para estes casos.

Portanto esta postagem não é para justificar o assassinato de homossexuais nem para contestar a gravidade de qualquer homicídio, mas para debater os métodos de pesquisa em ciências sociais através de um caso emblemático, cujos documentos completos você encontra aqui: https://homofobiamata.wordpress.com/estatisticas/relatorios/

O relatório de 2015 do Grupo Gay da Bahia dá conta de 318 homossexuais mortos durante o ano no Brasil. Na verdade, não creio que o número seja tão baixo. Fazendo uma continha aproximada e sem muito rigor estatístico, sabendo que o número de homicídios anuais no Brasil gira em torno de 60000 e que o percentual de homossexuais assumidos em torno de 6% da população, não deveríamos nos espantar se aproximadamente 4000 pessoas dentre as vítimas de homicídios tenham sido homossexuais.

Ocorre que o tal relatório trabalha com dados colhidos do noticiário e em que a sexualidade da vítima esteja especificada na matéria: isto acaba reduzindo o número, mas a questão que quero levantar é outra.

Analisando a lista produzida pelo próprio Grupo Gay da Bahia e disponibilizada em seu site, é possível chegar a conclusão que o grupo divulga?

É possível afirmar que a homofobia matou pelo menos 318 pessoas em 2015? Vamos dar uma olhada em alguns casos.

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Um clássico sempre atualíssimo, uma leitura sempre recomendada.

Renata Christina Pedrosa Moreira era lésbica e foi morta com golpes de enxadas por um pintor que tinha matado também outras 5 pessoas na mesma época. O pintor, preso, alegou que a motivação teria sido rixa entre quadrilhas de drogas. A família da vítima confirma que ela tinha envolvimento com o tráfico de entorpecentes. Não parece, pelo relatado em noticiário, haver qualquer evidência no inquérito sobre motivação homofóbica para o crime. http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/09/pintor-diz-ter-matado-mulher-que-mae-e-companheira-procuraram-com-pa.html

Renan Túbero Martins era um rapaz paulista, que foi morto pelo seu namorado enciumado. Como uma morte cujo autor era um gay assumido, o próprio namorado da vítima, pode ser listada numa pesquisa que pretende reunir apenas casos de mortes motivadas por ódio generalizado aos homossexuais? http://vejasp.abril.com.br/materia/discussao-ciume-morto-facada-pinheiros

Wallace Xisto Rocha também foi morto pelo seu ex-namorado que não aceitava o fim do namoro. Homofobia? http://www.folhadamata.com.br/noticia-lequinha-condenado-a-15-anos-pelo-assassinato-de-carol-1226

Talvez o caso mais icônico de como a divulgação desta lista (e de todas as feitas anualmente pelo GGB) é deturpada (no sentido que induz a crença de que as mortes listadas são motivadas por homofobia) seja Yuri Mamede da Costa. O rapaz se submeteu voluntariamente a uma aplicação de hidrogel no próprio pênis. Sofreu uma embolia em função disso. Foi listado como morte causada por homofobia pelo Grupo Gay da Bahia. http://correiocodoense.com.br/codoense-que-aplicou-hidrogel-no-penis-tinha-fascinio-pela-boa-forma-diz-irma/

Não vou detalhar todas 318 mortes listadas, mas muitos dos casos que estão lá foram classificados pela polícia como latrocínios, há casos de suicídio, muitos casos de homicídio provocado por motivos passionais (em que o autor também era homossexual, portanto não podendo ser um crime causado por ‘ódio generalizado aos homossexuais’) e para uma grande grande parte (provavelmente a maior parte) não há indícios quanto à motivação do crime no noticiário virtual (a mesma fonte usada pelo GGB para elaborar o relatório).

Ou seja: a grande maioria dos 318 LGTB listados no relatório parecem ter sido mortos pelos mesmos motivos que qualquer mortal: reação a assalto, dívidas com drogas, ciúme, traição.

Ao ser questionado sobre a classificação generalizada de mortes de homossexuais como sendo ‘homofobia’, mesmo na total ausência de evidências, o próprio analista de sistema responsável pelos dados da pesquisa, Dudu Michels já disse em entrevista à Folha de São Paulo (com uma dose de cinismo): “quando o movimento negro, os índios, ou as feministas divulgam suas estatísticas, não se questiona se o motivo foi racismo ou machismo”.

Ou seja, na concepção dele mesmo, do próprio responsável pelos dados do Relatório Anual de Mortes de LGTB é irrelevante saber se a motivação da morte foi de ódio contra determinado grupo para divulgá-la como tendo sido.

Ao meu ver a produção e divulgação deste anuário da forma como são feitas têm claro intuito de pressão política na fomentação de leis desiguais que passem a tratar a morte de homossexuais como algo mais grave do que a morte de outras categorias de seres humanos, como já foi feito com ‘sucesso’ pelo movimento feminista em relação às mulheres, cuja morte quando causada por familiares homens passou a ser tratada pela lei brasileira como mais grave que a morte de homens assassinados por familiares mulheres em circunstâncias idênticas.

De fato, concordo que uma pessoa que mata outra apenas por esta segunda ser homossexual mereça ter os agravantes (já previstos na lei, como por meio da tipificação de “motivo torpe”) associados à sua pena mas não defenderia uma eventual legislação que se referisse apenas a morte de uma categoria de pessoas como mais grave.

É possível sim, que alguns dos casos listados na pesquisa sejam mesmo de morte motivada apenas pela sexualidade da vítima. O caso destacado na capa do relatório de 2015, por exemplo, é de um homossexual – Adriano Cor – que, de acordo com as investigações, foi convidado por um desconhecido, em um ponto de ônibus, para uma aventura sexual em um matagal e lá acabou sendo morto durante o ato.

O assassino confessou em inquérito que ‘não gostava de viado’ e que por isso matou o rapaz… mas a existência de alguns poucos casos deste tipo de crime é justa motivação para mentir descaradamente sobre todos os outros?

 

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