Quem é contra a igualdade entre homens e mulheres?

Até 2007 a minha posição sobre movimentos de minorias – em geral – e sobre feminismo –  em específico – era bem diferente da que é hoje.

Se aproximava bem mais da posição que eu creio ser a da maioria das pessoas: um afastamento benevolente. A maioria das pessoas não se envolverem muito com questões de minorias mas têm uma visão positiva sobre os que se envolvem.

As posições e discursos daqueles que pegam o microfone para falar em defesa dos direitos dos negros, mulheres e gays é tida como a posição boa, bonita e agradável por default (e vice-versa: qualquer um que faça críticas mais incisivas e frequentes a estes movimentos é prontamente identificado como “Fascista!”).

Ao mesmo tempo percebo que a maioria das pessoas se chocam um pouco com extremismos (como depredações contra templos religiosos por parte de ativistas feministas ou discursos de morte aos brancos por parte de ativistas negros), mas sem que, na maior parte dos casos, estes atos ou discursos extremados sejam suficientes para abalar a boa vontade prévia com relação aos movimentos de defesa das minorias: o máximo é algo como “os meios podem não ser os melhores, mas ao menos a causa é boa”.

Eu tinha uma posição bem semelhante até 2007: a adoção do sistema de cotas raciais em algumas universidades já me incomodava um pouco, bem como o aumento da penetrância das propostas (que foram paulatinamente sendo aprovadas) de leis que tratavam desigualmente homens e mulheres (lei Maria da Penha, por exemplo) ou canções de rap paulista (como a faixa Preto Tipo A, dos Racionais MCs) dizendo que negros não devem fazer amizades com brancos. Mas, no geral, eu acreditava que eventuais discursos ou atos extremados fossem efeitos colaterais e reversíveis.

No meu caso, o momento epifânico aconteceu quando trabalhei no IBGE, mais especificamente, nas edições de 2006 e 2007 da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio.

A PNAD é a maior pesquisa anual do IBGE, provavevelmente só perde em tamanho para o Censo, que é decianuial, e investiga aspectos demográficos relacionados a temas como educação, saúde, renda, trabalho… muitas das alegações de desigualdade que você constantemente ouve dos ativistas de minorias nestes campos têm como fonte primária no Brasil esta pesquisa.

Até 2007 eu acreditava piamente, e costumava repetir esta lenda urbana, que as mulheres ganham menos do que os homens em função de preconceito no mercado de trabalho.

Eu nunca havia tido acesso às filósofas feministas Christina Hoff Sommers e Janet Radcliffe-Richards, que poderiam me desfazer este mal-entendido.

Até então eu achava, inclusive, que o termo feminismo se referia a um movimento muito mais homogêneo ideologicamente do que sei que ele é hoje, e que todos os feministas acreditavam na ideia de que homens ganham mais que mulheres por preconceito contra estas e a favor daqueles.

Foi ainda durante o treinamento para a PNAD de 2006 que eu comecei a me chocar com os fatos. Recebíamos um farto material para estudo (inclusive tabelas de resultados das pesquisas anteriores e aspectos metodológicos) e passei por um treinamento previo de 15 dias em uma das sedes do instituto, da rua General Canavarro, no Rio.

Alguns detalhes me chamaram a atenção: em basicamente todos os aspectos econômicos, educacionais e de saúde avaliados havia ampla desigualdade entre homens e mulheres, mas em muitos deles, possivelmente a maior parte, os homens eram os ‘perdedores’.

As tabelas de carga horária semanal média, por exemplo, apresentavam cerca de oito horas a mais gastas por homens do que por mulheres em suas atividades economicamente produtivas. Homens ingressavam no mercado de trabalho seis anos mais cedo que as mulheres. Provavelmente por isso abandonavam a escola antes. Homens eram maioria absoluta nos setores de construção civil, extração e indústria (os três setores da economia que concentram os serviços mais periculosos, insalubres e técnicos) enquanto mulheres eram ampla maioria nos setores comércio, serviços e serviço público. Homens gastavam mais horas no deslocamento casa-trabalho-casa.

Mas as únicas desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho que eu via ser anunciadas frequentemente na mídia eram sobre mulheres ganhando menos que os homens e trabalhando mais horas nos afazeres domésticos. E tais dados eram veiculados de maneira a dar a entender que todo o resto estava planificado (mesmo que a observação cotidiana já seja suficiente para contrabalançar esta crença).

Quero crer que nenhum ser humano sensato chamaria de igualitário um país onde homens trabalhassem EM MÉDIA mais horas por semana, em atividades mais periculosas e insalubres, que dependessem de conhecimentos técnicos mais esotéricos, demorando mais horas presos no engarrafamento para ir ao trabalho… e no fim do mês ganhassem o mesmo, ou no fim do dia dividissem igualmente as tarefas domésticas.

Aliás, a questão das tarefas domésticas é curiosa, porque quando somados os gastos femininos e masculinos médios com estes três fatores: horas de trabalho economicamente produtivo + tempo de deslocamento + atividades domésticas o que o IBGE demonstra é que o resultado é praticamente idêntico para mulheres ou homens no Brasil: cerca de 53 horas por semana.

O que de fato ocorre é que, como mulheres ocupam em geral empregos com carga horária menos extensa e em atividades mais próximas de casa, também em geral elas ficam mais responsáveis, dentro das divisões das reponsabilidades domésticas, pelo cuidado das coisas cotidianas do lar (sobre se estas divisões devem ou não existir, ou se são ou não necessariamente opressoras, sugiro os dois ótimos vídeos da vlogueira canadense Karen Straughan, abaixo).

O que o ‘feminismo de gênero’ (para usar a útil classificação cunhada por Christina Hoff Sommers) faz – através de seus aparelhos de divulgação – é coletar cerejas, pinçar variáveis que sejam favoráveis ao discurso de “homem opressor, mulher oprimida” e esconder, fazer silêncio, negar… os resultados, disponíveis nas mesmas fontes, que mostram um equilíbrio no desiquilíbrio.

Dois dos contra-argumentos que costumo ouvir são nas seguintes linhas:

  • “Ahhhh, Daniel, mas eu desconfio dos resultados destas pesquisas que você está falando aí, porque eu, particularmente, trabalho mais horas que o meu marido e ganho mais do que ele e mesmo assim ele acha que eu tenho que fazer todas as tarefas de casa”

Sobre isso, minha resposta é: sim, existem todos os tipos de ‘desigualdades’ pontuais que podem ser usadas como evidências anedóticas.

Vá morar com o diabo’, é uma composição do sambista baiano Riachão e lindamente gravada por Cassia Eller em que o eu lírico é um marido que se mata de trabalhar enquanto a mulher passa o dia dormindo,  todo mundo conhece alguma família em que há um casal de irmãos no qual um se ocupa nas tarefas domésticas e outro não (muitas vezes o que ajuda é ele, outras tantas é ela)… e também todo mundo sabe de algum caso em que o marido que trabalha tanto ou até menos que a mulher e mesmo assim age como se toda a responsabilidade das tarefas domésticas seja dela.

É por isso que evidências anedóticas valem menos que estatísticas cientificamente elaboradas: as evidências anedóticas podem mostrar tanto o cenário seja favorável aos homens (se você quiser focar na história do seu cunhado preguiçoso que faz sua irmã de escrava) quanto às mulheres (se você quiser relatar a vida do coitado do seu irmão que sofre com a mulher encostada dele).  Já a PNAD, quando lida sem seleção ideológica das variáveis, sem ‘coletar cerejas’, mostra que a coisa é bem mais equilibrada.

  • “Ahhhh, Daniel, mas eu li uma outra pesquisa, que dizia que mesmo quando homens e mulheres têm trabalhos idênticos os homens ganham mais”.

Provavelmente o que você viu foi alguma pesquisa (existem várias, como esta aqui: http://www.lg.com.br/huma/mercado/saiba-quais-as-profissoes-em-que-as-mulheres-ganham-mais-do-que-os-homens) que dizia que mesmo quando homens e mulheres exercem a mesma profissão os homens ainda ganham mais.

Sim, é verdade: biólogos ganham em média mais que biólogas, médicos ganham mais que médicas… e isto reforça meu ponto.

Como?

Sim, note: a PNAD, ao dizer que homens ganham cerca de 30% do que as mulheres, considera os homens e mulheres brasileiros em geral, independente de qualquer variável adicional.

Já nas pesquisas que isolam a variável ‘profissão’ o resultado é uma drástica redução da desigualdade, mas ainda a manutenção de alguma, oscilando em torno dos 15%.

E por que a desigualdade não acaba? Simples demais: porque há outras variáveis influenciando no resultado salarial: anos de estudo, horas de trabalho semanal, exercício diurno ou noturno do emprego…

O fato de que, quando isolada a variável ‘profissão’, os homens continuam ganhando mais – porém com uma menor diferença percentual –  é uma excelente evidência de que a desigualdade de cerca de 30% nos ganhos de trabalhadores masculinos e femininos não é resultado de preconceito no mercado de trabalho, mas de variáveis como carga horária, área de atuação, anos de experiência e turno de trabalho.

Se você lê bem em inglês, eu fortemente sugiro este artigo da filósofa, professora de ética na Universidade de Oxford, Janet Radcliffe-Richards.

Nele ela defende que a igualdade defendida pelos feministas de segunda e terceira onda, baseada e salários iguais e coisas semelhantes, não atende ao que John Stuart Mill, um dos primeiros pensadores feministas, chamava de princípio da igualdade plena. Eu a acompanho completamente em sua defesa feita aqui: http://www.jpe.ox.ac.uk/papers/the-problem-of-sex-equality/.

Declaro para os devidos fins que sou um negro loiro de pele clara e olhos verdes e que moro sozinho na casa de praia da minha tia.

A decisão do Itamaraty, também conhecido como Ministério das Relações Exteriores, de excluir 47 dentre 100 pessoas que haviam se inscrito pelo sistema de cotas raciais para a carreira diplomática tem sido um dos temas quentes da websfera.

O debate sobre se os sistemas de cotas raciais que se ploriferaram pelos diversos concursos de acesso às instituições públicas de ensino e cargos públicos do país nos últimos 15 anos deveriam contar com uma comissão avaliadora de fenótipo para conferir se o candidato é negro é antiga.

Lá no começo da onda das cotas, quando apenas meia-dúzia de 3 ou 4 universidades haviam instaurado este tipo de discriminação supostamente positiva houve um caso emblemático: dois irmãos gêmeos univitelinos (portanto geneticamente idênticos) se inscreveram para o vestibular da Universidade de Brasília, eram ambos mulatos claros de cabelo encaracolado, um deles foi considerado branco e outro considerado negro pela banca avaliadora.

O caso se tornou notório e deu gás à pressão de boa parte dos ativistas negros contra a existência de comissões avaliadoras de fenótipo.

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Na mairoria dos inúmeros certames que passaram a adotar cotas raciais na última década tem bastado se declarar negro no formulário de inscrição para concorrer às vagas de modo mais fácil.

Mas aí uma boa parte lá dos tais ativistas do movimento negro percebeu que muitas das pessoas que se inscrevem como negras nos certames é loira, de olhos claros, com sobrenome alemão… e aí, a chiadeira passou a ser para que sejam instauradas comissões de avaliação fenotípica.

Me parece que – como sugere o velho ditado e a canção do É o tchan – não há cirurgião urologista nem santo que endireite esta bagaça.

Sou negro e sou muito, muito pobre. Vivi toda minha adolescência e juventude oficialmente abaixo da linha da miséria. Mesmo hoje, sou um mero funcionário público, ainda morador de uma favela suja e violenta. Embora já não passe mais por necessidades a ponto de não ter dinheiro pra comer e me vestir.

Comecei 3 vezes o ensino superior em universidades públicas (sem nunca ter dependido de cotas para ser aprovado) e só consegui concluir um curso há poucos meses, aos 37 anos, exatamente porque minha condição socio-econômica nunca permitia avançar nos estudos anteriormente. Não se trata aqui, portanto, de um “elitista” que “tem medo do acesso da senzala à casa grande”, de um “privilegiado alheio ao sofrimento dos pobres”, como algumas pessoas costumam repetir roboticamente quando ouvem críticas aos sistemas discriminatórios de seleção.

 

Sempre fui contra as cotas raciais – por diversos motivos – e já há alguns anos sou também contra as cotas sociais.

O sistema de cotas social se baseia em uma ideia com a qual, a princípio, concordo. O defensor do sistema de cotas para pobres e estudantes de escola pública geralmente enfatiza em sua argumentação a ideia de que vivemos numa Belíndia, uma sociedade dividida entre miseráveis excluídos e abastados privilegiados. É esta a noção que passavam as publicidades oficiais: um jovem negro com aparência empobrecida, mal vestido, descendo as escadarias da favela rumo a uma padaria onde trabalharia até que seu patrão, um português, lhe daria um tapa nas costas lembrando que era hora de estudar.

O jovem pegaria sua mochila correndo, entraria num ônibus lotado e encerraria triunfante entrando pelo hall de entrada suntuoso de um prédio acadêmico onde encontraria com seus agora colegas loiros de olhos azuis e aquele semblante típico da Zona Sul do Rio. A imagem desfoca, entra o logotipo do Governo Federal e o do MEC. Lindo roteiro.

Neste cenário idealizado, platônico, o sistema de cotas para pobres me parecia justo, e até benéfico à qualidade da formação superior. Ao meu ver um rapaz típico do Jacarezinho que fizesse 70 pontos no vestibular da UERJ era até mais promissor em termos acadêmicos que um típico jovem do Leblon que tivesse feito 85 pontos.

A questão mais imediata e óbvia nesta narrativa, que tantos compram e que eu mesmo comprei por muito tempo, é que não vivemos mesmo numa Belíndia.

Não vivemos num mundo dividido entre adolescentes de sobrenome ‘Heinneger Voloch’ moradoras do Leblon e matriculadas no Anglo-Americano e no Instituto Goethe e jovens de sobrenome ‘Silva e Silva’ moradoras de barracos a beira de valões em Caxias e que terminaram o ensino médio via supletivo noturno. Nossa sociedade é muito mais colorida socialmente que o sistema de cotas social desenha. O sistema de cotas social, ao dividir os critérios de acesso ao ensino superior entre os oprimidos e os privilegiados – o que é feito através dos cirúrgicos critérios de corte: ter estudado desde qual série em escola pública e ter renda familar per capita inferior a tantas centenas de reais – desconsidera as nuances entre os Volochs moradores do Leblon e dos Silva moradores da favela do Lixão.

Mas ainda não foi perceber isto que me fez me tornar contra as cotas sociais (as raciais, repito, nunca aprovei), foi perceber o quanto os critérios eram frágeis, impossíveis de ser fiscalizados, e era usados exatamente pelos jovens de sobrenome Heinneger, com pais médicos e engenheiros, moradores de confortáveis apartamentos nos bairros mais nobres do Rio.

O primeiro alarme pra mim soou há muito, muito tempo atrás, quando li numa matéria de O Globo que uma menina de sobrenome judeu, se bem me lembro (posso estar misturando mais de uma história, estou puxando pela memória) aluna do Colégio Militar, filha de um oficial das forças armadas, havia passado pelo sistema de cotas na UERJ, mesmo com o critério de corte de renda.

Àquela época, lá pelos idos de 2003, isso abriu um pequeno debate público (igualzinho a este aberto essa semana pela decisão do Itamaraty, com alguma divulgação na mídia e debates no Orkut e tals) sobre se os sistemas  de cotas deviam ou não beneficiar estudantes egressos de escolas públicas de referência  (Colégio Militar, Pedro II, IFRJ, CEFET, CAp-UERJ…).

Em 2004 eu passei para Jornalismo na UERJ e para Direito na UNIRIO. Escolhi UERJ, e comecei a me dar conta de que a história da menina, que tinha ficado famosa um pouco antes, não era excessão: o sistema de cotas já era amplamente utilizado por jovens de classe média e alta, oriúndos de escolas federais de referência, e que simplesmente mentiam nos critérios socio-econômicos, não revelavam morar com os pais fugindo, assim, dos critérios de corte.

Passei a acreditar então, como muitos ainda acham hoje, que a solução seria endurecer a fiscalização. Demorou para me dar conta do outro óbvio. Este tipo de ‘fraude’ é infiscalizável.

Vamos contar uma historinha fictícia, os nomes são inventados mas a situação eu já presenciei, com pequenas alterações, muitas vezes: as suas personagens são Camila Birre, 18 anos, filha de um médico com uma engenheira civil, renda per capita de 9 mil reais e Joana Pondé, filha de um empresário e uma dona de casa, renda per capita de 15 mil.

Na nossa história ambas são amigas desde a terceira série, estudaram juntas primeiro no Pedro II e depois no IFRJ, agora estão prestando para Medicina na UERJ. É dia do resultado final.

Camila liga eufórica para Joana parabenizando a amiga pela aprovação. Joana não compreende, afinal havia feito 10 pontos a mais que Camila e não havia passado, como a amiga conseguiu? Camila agora é quem não entende, elas estudaram em escola pública, tinham direito a cotas, pergunta: se Joana fez mais pontos que ela, como não passou? Só agora Joana compreende, Camila havia sido esperta e declarado morar sozinha em vez de com pai, mãe e dois irmãos: só indicou como renda a bolsa de estágio que recebia em função do curso técnico, apresentou como comprovante de residência a casa de verão da família para não levantar suspeita em função da alta conta de luz de seu apartamento. Só agora Camila compreende, Joana foi otária e declarou sua composição familiar real.

Agora, digamos que você fosse o funcionário público responsável por investigar o acesso à UERJ, ou que fosse o juiz responsável por julgar Camila. Eu espero que você perceba sem dificuldade que é tecnicamente impossível provar que a nossa esperta amiga cometeu fraude… a composição familiar é auto-estabelecida, se ela diz que mora sozinha então ela mora sozinha, mesmo que você prove por testemunhas e filmagens que ela passa muito tempo na casa dos pais, no máximo você poderia buscar a declaração de IR dos pais e verificar se eles haviam a declarado como dependente, mas seria facilmente burlável e mesmo argumentável também (poderiam alegar que Camila foi morar só entre a data da declaração e a da inscrição).

Os sistemas de cotas, tanto o racial (cujas minhas objeções são muito mais extensas e falo mais tarde) quanto o social são ótimos mecanismos para reforçar a nossa já famosa Lei de Gérson, a ideia de que o Brasil é o país da malandragem.

O Itamaraty parece que, após o chilique dos ativistas, acaba de perceber isso.

Infelizmente, em vez de abandonar o sistema, preferiram retornar ao mesmo mecanismo que já tinha dado errado lá no começo, na UnB. Vamos esperar até que esta comissão cometa um deslize semelhante àquele e que novamente os afro-ativistas berrem, de novo, contra as comissões de avaliação fenotípica.

Andemos, em círculos.

Steven Pinker, o psicólogo mais ‘Fascista!’ de Harvard

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Steven Pinker é um professor de psicologia da Universidade de Harvard que defende que nossos padrões de comportamento e cognição não podem ser corretamente estudados como se fossem aspectos à parte da nossa Biologia (fisiologia, neuroanatomia, genética de populações…). Para ele e seus colegas de uma emergente sub-área da psicologia – a psicologia evolutiva – o comportamento e a inteligência humana são resultados dos fenômenos biológicos que regem o comportamento e a cognição dos demais animais.

Parece uma posição tranquila e sem grandes implicações morais, mas a questão é que ao defender tal modo de compreensão da mente humana, com esta sendo aspecto emergente em última análise da nossa biologia, os psicólogos evolutivos são obrigados a trabalhar com a ideia de que determinados tipos de comportamento ou padrões cognitivos são influenciados em função de aspectos demográficos como raça, gênero, idade… para os psicólogos evolutivos, do qual o mais popular é este cabeludo e encaracolado professor de Harvard, não há nada de cientifica ou moralmente errado em supor que alguns grupos étnicos sejam geneticamente diferentes em aptidões ou em supor que as mulheres e homens variem em suas preferências profissionais por conta de aspectos hormonais ou neurológicos.

Os psicólogos evolutivos entendem que, como hipóteses, alegações como estas podem e devem ser investigadas cientificamente. Acreditam que os longos períodos de isolamento pelos quais as populações humanas passaram possam ter produzido diferenças comportamentais e não apenas físicas entre os grandes grupos humanos. Também acreditam que, assim como é observado em todo o restante do reino animal, os dimorfismos físicos observados entre machos e fêmeas de nossa espécie devem ter sido acompanhados por dimorfismos cognitivos e comportamentais também.

E é aí que Pinker e outros psicólogos evolutivos e sociobiólogos (a disciplina da Biologia mais associada à psicologia evolutiva) ouvem a torto e a direito que, sim, eles também são ‘Fascistas!’ e que, como disse recentemente em um programa de rádio uma feminista brasileira, ‘Biologia é coisa do século passado’.

Na palestra apresentada abaixo Pinker fala sobre o que viveu quando estava elaborando a mais ‘Fascista!’ de suas obras: Tábula rasa: a moderna negação da natureza humana, e mais abaixo você pode ler um pequeno trecho, traduzido por mim.

 

“(…)

O feminismo é frequentemente ridicularizado por conta dos argumentos de seus extremistas lunáticos – por exemplo, que todo ato sexual é estupro, que todas as mulheres deveriam ser lésbicas, ou que apenas 10 por cento da população deveria ser masculina. Feministas respondem que os proponentes dos direitos femininos não falam com uma única voz, e que os pensamentos feministas comportam muitas posições, que precisam ser avaliadas independentemente. O que é completamente legítimo, mas se aplica de ambos os modos. Criticar uma proposta feminista em particular não é atacar o feminismo em geral.

Qualquer um familiarizado com o  universo acadêmico sabe que ele fermenta cultos ideológicos que são dignos de serem classificados como dogma e que são resistentes ao criticismo. Muitas mulheres acreditam que isto está agora ocorrendo com o feminismo. No seu livro Who Stole Feminism? a filósofa Christina Hoff Sommers desenha uma útil distinção entre as duas escolas de pensamento. Feminismo de igualdade se opõe a discriminação sexual e outras formas de injustiça contra as mulheres. Ele é parte da tradição liberal clássica e humanista que cresceu com o Iluminismo, e ele guiou a primeira onda do feminismo e lançou a segunda onda. O feminismo de gênero assume que as mulheres continuam sendo escravizadas por um perverso sistema de dominação masculina, o sistema de gêneros, em que “crianças bi-sexuais são transformadas em personalidades de gênero masculino e feminino, o primeiro destinado a comandar, o outro a obedecer.” Isto é oposto à tradição liberal clássica e se alia ao invés disso com o marxismo, o pós-modernismo, o social-construtivismo e a ciência radical. Isto se tornou o credo de alguns programas de estudos de gênero, organizações feministas e porta-vozes do movimento das mulheres.

O feminismo de igualdade é uma doutrina moral sobre tratamento igual que não faz qualquer restrição sobre questões empíricas abertas em psicologia ou biologia. Feminismo de gênero é uma doutrina empírica compromissada com três alegações sobre a natureza humana. A primeira é que as diferenças entre homens e mulheres nada têm a ver com biologia, mas são socialmente construídas em seu inteiro. A segunda é que seres humanos possuem uma única motivação social – poder – e que a vida social pode ser compreendida somente em termos de como ele é exercido. A terceira é que as interações entre seres humanos se estabelecem não por conta das pessoas lidando umas com as outras como indivíduos, mas por conta dos grupos lidando uns com os outros grupos – neste caso, o gênero masculino dominando o gênero feminino.

Ao abraçar tais doutrinas, os genderistas estão algemando o feminismo nos trilhos de uma estrada de ferro e há um trem se aproximando. Como veremos, a neurociência, a genética, a psicologia, e a etnografia estão documentando diferenças sexuais que quase certamente se originaram na biologia humana. E a psicologia evolutiva está documentando uma rede de razões que não a dominação de grupos contra grupos (como o amor, o sexo, a família e a beleza) que nos colocam em muitos conflitos de interesse com membros do mesmo sexo e do sexo oposto.

Feministas de gênero querem descarrilhar o trem ou então que outras mulheres se juntem no martírio, mas as outras mulheres não estão colaborando. A despeito de toda a visibilidade, feministas de gênero não falam por todos os feministas, muito menos por todas as mulheres.

Para começo de conversa, a pesquisa sobre a base biológica das diferenças entre os sexos têm sido comandada por mulheres. Por conta de ser tão frequentemente dito que este campo de pesquisa é um enredo para manter as mulheres inferiorizadas, eu irei citar nomes. Pesquisadoras em biologia das diferenças sexuais incluem as neurocientistas Raquel Gur, Melissa Hines, Doreen Kimura, Jerre Levy, Martha McClintock, Sally Shaywitz e Sandra Witelson e as psicólogas Cammila Benbow, Linda Gottfredson, Diana Halpern, Judith Kleinfeld e Diane McGuiness. A sociobiologia e a psicologia evolutiva, algumas vezes esterotipada como uma “disciplina sexista”, é contudo o mais bi-sexualizado dos campos acadêmicos com o qual tenho contato. Suas principais figuras incluem Laura Betzig, Elizabeth Cashdan, Leda Cosmides, Helena Cronin, Mildred Dickeman, Helen Fisher, Patricia Gowaty, Kristen Hawkes, Sarah Blaffer Hrdy, Madalena Hurtado, Bobbie Low, Linda Mealey, Felicia Pratto, Marnie Rice, Catherine Salmon, Joan Silk, Meredith Small, Barbara Smuts, Nancy Wilmsen Thornill e Margo Wilson.

(…)

Por que as pessoas têm tanto medo da ideia de que as mentes de homens e mulheres não são idênticas na totalidade de seus aspectos? Seria realmente melhor se todos fossemos iguais a Pat, a personagem nerd e andrógina de Saturday Night Live? O medo, é claro, é que diferença implique em desigualdade – que se os sexos forem diferentes em qualquer aspecto, então os homens terão que ser melhores, ou mais dominantes, e terão para si toda a diversão.

Nada poderia ser mais distante do pensamento biológico

(…)”

Não, não foram mortos 318 por homofobia no Brasil em 2015

O primeiro parágrafo deste post é para explicar que o autor deste blog não é a favor de assassinatos de homossexuais, que ele considera qualquer homicídio (exceto os em legítima defesa) grave e que acredita que homicidas motivados apenas por ódio contra grupos sociais (sexualidade, aficção esportiva, religião, bairro de moradia) devem receber os agravantes de pena já previstos para estes casos.

Portanto esta postagem não é para justificar o assassinato de homossexuais nem para contestar a gravidade de qualquer homicídio, mas para debater os métodos de pesquisa em ciências sociais através de um caso emblemático, cujos documentos completos você encontra aqui: https://homofobiamata.wordpress.com/estatisticas/relatorios/

O relatório de 2015 do Grupo Gay da Bahia dá conta de 318 homossexuais mortos durante o ano no Brasil. Na verdade, não creio que o número seja tão baixo. Fazendo uma continha aproximada e sem muito rigor estatístico, sabendo que o número de homicídios anuais no Brasil gira em torno de 60000 e que o percentual de homossexuais assumidos em torno de 6% da população, não deveríamos nos espantar se aproximadamente 4000 pessoas dentre as vítimas de homicídios tenham sido homossexuais.

Ocorre que o tal relatório trabalha com dados colhidos do noticiário e em que a sexualidade da vítima esteja especificada na matéria: isto acaba reduzindo o número, mas a questão que quero levantar é outra.

Analisando a lista produzida pelo próprio Grupo Gay da Bahia e disponibilizada em seu site, é possível chegar a conclusão que o grupo divulga?

É possível afirmar que a homofobia matou pelo menos 318 pessoas em 2015? Vamos dar uma olhada em alguns casos.

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Um clássico sempre atualíssimo, uma leitura sempre recomendada.

Renata Christina Pedrosa Moreira era lésbica e foi morta com golpes de enxadas por um pintor que tinha matado também outras 5 pessoas na mesma época. O pintor, preso, alegou que a motivação teria sido rixa entre quadrilhas de drogas. A família da vítima confirma que ela tinha envolvimento com o tráfico de entorpecentes. Não parece, pelo relatado em noticiário, haver qualquer evidência no inquérito sobre motivação homofóbica para o crime. http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/09/pintor-diz-ter-matado-mulher-que-mae-e-companheira-procuraram-com-pa.html

Renan Túbero Martins era um rapaz paulista, que foi morto pelo seu namorado enciumado. Como uma morte cujo autor era um gay assumido, o próprio namorado da vítima, pode ser listada numa pesquisa que pretende reunir apenas casos de mortes motivadas por ódio generalizado aos homossexuais? http://vejasp.abril.com.br/materia/discussao-ciume-morto-facada-pinheiros

Wallace Xisto Rocha também foi morto pelo seu ex-namorado que não aceitava o fim do namoro. Homofobia? http://www.folhadamata.com.br/noticia-lequinha-condenado-a-15-anos-pelo-assassinato-de-carol-1226

Talvez o caso mais icônico de como a divulgação desta lista (e de todas as feitas anualmente pelo GGB) é deturpada (no sentido que induz a crença de que as mortes listadas são motivadas por homofobia) seja Yuri Mamede da Costa. O rapaz se submeteu voluntariamente a uma aplicação de hidrogel no próprio pênis. Sofreu uma embolia em função disso. Foi listado como morte causada por homofobia pelo Grupo Gay da Bahia. http://correiocodoense.com.br/codoense-que-aplicou-hidrogel-no-penis-tinha-fascinio-pela-boa-forma-diz-irma/

Não vou detalhar todas 318 mortes listadas, mas muitos dos casos que estão lá foram classificados pela polícia como latrocínios, há casos de suicídio, muitos casos de homicídio provocado por motivos passionais (em que o autor também era homossexual, portanto não podendo ser um crime causado por ‘ódio generalizado aos homossexuais’) e para uma grande grande parte (provavelmente a maior parte) não há indícios quanto à motivação do crime no noticiário virtual (a mesma fonte usada pelo GGB para elaborar o relatório).

Ou seja: a grande maioria dos 318 LGTB listados no relatório parecem ter sido mortos pelos mesmos motivos que qualquer mortal: reação a assalto, dívidas com drogas, ciúme, traição.

Ao ser questionado sobre a classificação generalizada de mortes de homossexuais como sendo ‘homofobia’, mesmo na total ausência de evidências, o próprio analista de sistema responsável pelos dados da pesquisa, Dudu Michels já disse em entrevista à Folha de São Paulo (com uma dose de cinismo): “quando o movimento negro, os índios, ou as feministas divulgam suas estatísticas, não se questiona se o motivo foi racismo ou machismo”.

Ou seja, na concepção dele mesmo, do próprio responsável pelos dados do Relatório Anual de Mortes de LGTB é irrelevante saber se a motivação da morte foi de ódio contra determinado grupo para divulgá-la como tendo sido.

Ao meu ver a produção e divulgação deste anuário da forma como são feitas têm claro intuito de pressão política na fomentação de leis desiguais que passem a tratar a morte de homossexuais como algo mais grave do que a morte de outras categorias de seres humanos, como já foi feito com ‘sucesso’ pelo movimento feminista em relação às mulheres, cuja morte quando causada por familiares homens passou a ser tratada pela lei brasileira como mais grave que a morte de homens assassinados por familiares mulheres em circunstâncias idênticas.

De fato, concordo que uma pessoa que mata outra apenas por esta segunda ser homossexual mereça ter os agravantes (já previstos na lei, como por meio da tipificação de “motivo torpe”) associados à sua pena mas não defenderia uma eventual legislação que se referisse apenas a morte de uma categoria de pessoas como mais grave.

É possível sim, que alguns dos casos listados na pesquisa sejam mesmo de morte motivada apenas pela sexualidade da vítima. O caso destacado na capa do relatório de 2015, por exemplo, é de um homossexual – Adriano Cor – que, de acordo com as investigações, foi convidado por um desconhecido, em um ponto de ônibus, para uma aventura sexual em um matagal e lá acabou sendo morto durante o ato.

O assassino confessou em inquérito que ‘não gostava de viado’ e que por isso matou o rapaz… mas a existência de alguns poucos casos deste tipo de crime é justa motivação para mentir descaradamente sobre todos os outros?

 

Christina Hoff Sommers fala sobre ‘cultura do estupro’.


sommers
O termo ‘feminismo’ é um balaio que inclui ativistas e ideologias bem distintos entre si. Embora o feminismo mais popular e vogal seja um movimento que considero odioso e abjeto, há feministas menos populares cujo discurso e ativismo são de fato igualitários. Um dos nomes mais importantes neste segmento é a doutora em filosofia, especialista em ética, Christina Hoff Sommers. Neste texto, traduzido por mim, ela fala sobre a tal ‘Cultura do estupro’.

A cultura de estupro é uma histeria onde paranóia, censura e falsas acusações florescem

Christina Hoff Sommers
15 de maio de 2014

traduzido de http://time.com/100091/campus-sexual-assault-christina-hoff-sommers/


Christina Hoff Sommers é uma estudiosa residente no American Enterprise Institute, contribuinte da revista TIME e autora de vários livros, incluindo The War Against Boys (A guerra contra os meninos).

Em 27 de janeiro de 2010 funcionários da Universidade de Dacota do Norte puniram o estudante Caleb Warner por ter abusado sexualmente de uma colega. Ele insistiu que o encontro foi consensual, mas foi considerado culpado por um tribunal acadêmico e por isso expulso e banido do campus.

Poucos meses depois, Warner recebeu uma notícia surpreendente. A polícia local havia determinado não só que Warner era inocente , mas que a suposta vítima tinha deliberadamente falsificado suas acusações. Ela foi acusada de mentir para a polícia preenchendo um relato falso, e fugiu do estado.

Casos como o de Warner estão se proliferando. Aqui está uma lista parcial de rapazes que recentemente entraram com ações contra as suas instituições de ensino no que parece ser uma brutal discriminação nos tribunais acadêmicos de agressão sexual: Drew Sterrett, da Universidade de Michigan; John Doe , de Swarthmore;  Anthony Villar – da Universidade da Filadélfia; Peter Yu – de Vassar;  Andre Henry – da Universidade do Estado de Delaware; Dez Wells – de Xavier; e Zackary Hunt – de Denison.

“Culpado até provar o contrário” é o novo princípio jurídico quando o sexo está em causa.

A agressão sexual no campus é um problema real, mas a nova cruzada em torno da “cultura do estupro” está ficando feia. A lista de jovens acusados falsamente submetidos aos tribunais de araque da justiça está crescendo em ritmo acelerado. Alunos da Universidade de Boston exigiram que um show de Robin Thicke fosse cancelado: seu hit Blurred Lines é, supostamente, um hino de estupro. (Inclui as palavras: “Eu sei que você quer.”) Professores de Oberlin, UCLA, Santa Barbara e Rutgers foram instados a colocar advertência nas ementas que incluem livros como O Grande Gatsb: “muita violência misógina”. Este movimento está se transformando nossos campi em ambientes hostis para a liberdade de expressão e para o julgamento justo. E até agora, funcionários da universidade, líderes políticos e a Casa Branca estão embarcando nesta canoa.

Parece que estamos no meio de um desses surtos onde paranóia, censura e acusações falsas florescem e pessoas geralmente sensatas abandonam suas capacidades críticas. Não estamos diante de algo tão extremo como os julgamentos das bruxas de Salem ou as inquisições de McCarthy. Mas o movimento sobre a “cultura do estupro” de hoje tem algumas semelhanças a uma histeria que tomou conta de creches em 1980.

Em agosto de 1983, uma mãe angustiada relatou à polícia que seu filho de 2 anos de idade havia sido abusada horrivelmente na pré-escola McMartin em Manhattan Beach, Califórnia. Ela descreveu uma rede de túneis subterrâneos, onde os funcionários da escola haviam sodomizado seu filho e o obrigado a assistir a sacrifícios de animais. A mãe estava mentalmente perturbada e sua história não tem base na realidade. Mas a mídia aproveitou a história, e a paranóia sobre cultos satânicos se tornou uma epidemia nacional. Os pais já estavam no limite: grupos de defesa, políticos e os meios de comunicação tinham advertido que cerca de 50.000 crianças tinham sido sequestradas por estranhos, e 4.000 delas assassinadas, a cada ano. Com a propagação da notícia da barbárie McMartin funcionários de creches de todo o país se viram implicados no crime de abuso infantil satânico. Uma rede nacional de abuso-terapeutas prontamente se materializou. Através do uso de técnicas de entrevista intimidante, eles encorajavam as crianças a “lembrar” dos terríveis abusos em sua creche.

Os terapeutas do abuso se juntaram a um grupo influente de feministas conspiracionistas, incluindo Gloria Steinem e Catharine MacKinnon. Quando alguns feministas civil-libertários como Carol Travis, Wendy Kaminer, Ellen Willis e Debbie Nathan tentaram alertar sobre a caça às bruxas, foram vilipendiados pelo agitadores da conspiração como backlashers, apologistas de abuso infantil, e “coxinhas manipulados pela mídia misógina”.

Desde o início do susto em 1983, até seu fim, em meados da década de 1990, um número incontável de crianças foram submetidas a terapias manipulativas e centenas de adultos inocentes enfrentaram acusações de abuso infantil ritual. Vários dos acusados passaram anos de prisão por crimes que nunca aconteceram. Um recente artigo do portal Slate chamou de “um dos pânicos morais mais prejudiciais na história da América”, que só começou a diminuir quando jornalistas céticos trataram de verificar e investigar os fatos. Uma história de 1985, no Los Angeles Times informou aos leitores que, de acordo com relatórios do FBI, o número de sequestros de crianças por estrangeiros em 1984 foi de 67, e não 50 mil.

O pânico sobre estupros na faculdade de hoje é uma recapitulação estranha do pânico sobre abusos na creche. Assim como o mítico “50 mil crianças raptadas” alimentou a paranóia com a segurança da criança na década de 1980, do mesmo modo a histeria de hoje é incitada pela constante repetição de igualmente fictícios “um em cada cinco mulheres no campus é vítima de estupro” que até mesmo o presidente Barack Obama abraçou.

O número um em cada cinco é derivado de pesquisas tendenciosas onde amostras de inquiridos são feitas uma combinação engenhosa de perguntas simples e manipuladoras, que relembram as entrevistas por trás das agitações da creche.

Um estudo muito cidado, por exemplo , primeiro diz aos entrevistados: “Por favor, lembre-se que mesmo se alguém usa álcool ou drogas, o que acontece com eles não é culpa deles.” Em seguida, ele pergunta: “Quando você estava bêbado, alto, drogado, ou desmaiado e incapaz de consentir, quantas pessoas já fizeram sexo vaginal com você.” Conta-se todos esses encontros sexuais como estupros.

Estudos respeitáveis sugerem que entre as mulheres universitárias aproximadamente uma em cada quarenta são vítimas de estupro ou agressão sexual (agressão inclui ameaças verbais, bem como agarrões sexuais indesejados e carícias). Uma em cada quarenta ainda são muitas mulheres. Mas isso dificilmente constitui uma “cultura do estupro”, exigindo a intervenção da Casa Branca.

Mais uma vez, feministas da conspiração estão na vanguarda desse movimento. Assim como psicólogos feministas convenceram as crianças que tinham sido abusadas, assim ativistas femininas persuadiram muitas mulheres jovens que o que elas poderiam ter descartado como um encontro casual depois de uma bebedeira era realmente um crime de estupro. “Acredito nas crianças”, disseram os especialistas de abuso ritual durante a paranoia da creche. “Creio nas sobreviventes”, dizem culturalistas do estupro de hoje. Não acreditar numa suposta vítima é correr o risco de ser acusado de apoiador do estupro.

Alguns vão dizer que esses pânicos morais, mesmo exagerados, ao menos chamam a atenção para problemas sérios. Isso é profundamente equivocada. A histeria em torno de abuso creche e campus estupro não lança nenhuma luz: ao contrário, elas confundem e desacreditam casos genuínos de abuso e violência. Molestamento e estupro são crimes hediondos que merecem atenção séria e vigorosa resposta. Panico gera caos e linchamento. Eles punem vítimas inocentes, minam a confiança social, e nos ensinam a duvidar da evidência de nossa própria experiência.

E.M. Forster disse isto melhor em A Passage to India, referindo-se a um pânico entre “bons cidadãos” após uma acusação altamente duvidosa de estupro: “A piedade, a ira, e o heroísmo os encheu, mas o poder de somar dois mais dois foi aniquilado.”